Guia
Amigo secreto: as regras que ninguém combina e todo mundo assume
Sorteio, tema, prazo e o problema que ninguém resolve: o que fazer quando você tira alguém que mal conhece.
O amigo secreto tem quatro regras escritas e umas dez que todo mundo assume que os outros também conhecem. É nas assumidas que a brincadeira desanda.
O sorteio
A versão de papel ainda funciona e tem uma vantagem que os aplicativos não têm: todo mundo vê o mesmo processo acontecer. O problema é que ela exige que o grupo esteja no mesmo lugar, e exige uma regra que costuma ser esquecida — quem tirar o próprio nome precisa avisar antes que alguém guarde o papel, senão o sorteio inteiro precisa ser refeito.
Para grupos que não se encontram antes da data, os sorteadores online resolvem: cada pessoa recebe o resultado por mensagem e nem quem organizou sabe quem tirou quem. Isso é uma vantagem real — em sorteio de papel, o organizador quase sempre acaba sabendo mais do que devia.
Uma regra que vale enunciar em voz alta, porque parece óbvia e é quebrada toda vez: você não conta para ninguém quem tirou. Nem para o cônjuge que está no mesmo sorteio, nem para o colega mais próximo. A informação vaza pelo grupo em dois dias e a data perde a graça.
Tema e faixa de preço
O tema é a ferramenta mais subutilizada do amigo secreto. Ele reduz o campo de busca, dá a todo mundo o mesmo ponto de partida, e resolve o pior problema da brincadeira, que é não saber por onde começar.
Alguns que funcionam bem:
- Algo comestível. Elimina a questão do tamanho e do gosto decorativo.
- Algo que caiba numa caixa de sapato. Limita tamanho e preço sem falar em preço.
- Algo feito à mão. Muda o eixo de dinheiro para esforço, e costuma render as melhores histórias.
- Algo inútil. Assume a piada em vez de deixá-la acontecer por acidente.
O valor deve ser combinado no mesmo momento do sorteio, nunca depois. Se você esperar, alguém já comprou, e o número passa a ser definido pelo que essa pessoa gastou.
Prazos
Duas datas, não uma.
A primeira é o dia da confraternização — essa todo mundo sabe. A segunda é o prazo de compra, que quase ninguém combina e que devia ser uma semana antes. Serve para quem vai comprar online, onde o atraso de entrega é a causa número um de alguém aparecer sem presente.
E se o grupo usa dicas — a lista de preferências que cada pessoa escreve — o prazo das dicas precisa ser antes do prazo de compra. Dica que chega no dia anterior não é dica; é cobrança.
Quando você tira alguém que mal conhece
O caso que ninguém resolve, e o mais comum em amigo secreto de escritório.
Primeiro: pergunte a alguém que conheça. É a solução mais óbvia e a menos usada, por medo de estragar a surpresa. Não estraga. Uma pergunta discreta a um colega próximo é discretamente feita todos os anos por metade do grupo.
Segundo: use o que dá para observar. A caneca da mesa, o adesivo do notebook, o que a pessoa traz para o almoço, do que ela reclama. Você conhece mais do que imagina — só não organizou a informação.
Terceiro, se nada funcionar: vá de consumível bom. Não um consumível genérico — um bom. Um café de origem, um azeite decente, um chocolate que não se acha no mercado da esquina. É o presente com a maior taxa de acerto quando você não sabe nada sobre a pessoa, porque não depende de tamanho, de gosto decorativo nem de espaço na casa.
O que não fazer nesse caso: comprar algo caro para compensar o desconhecimento. Presente caro para alguém que você mal conhece não comunica generosidade — comunica constrangimento, e transfere o constrangimento para quem recebe.