Guia
Presente para quem já tem tudo
O caso mais difícil, e onde a resposta nunca é um objeto melhor — é um objeto mais específico.
Quem "já tem tudo" não tem tudo. Tem tudo o que decidiu comprar. A diferença entre essas duas frases é onde mora o presente.
Por que "melhor" é a resposta errada
O instinto diante de alguém difícil é subir o preço. Se a pessoa já tem uma caneca, dê uma caneca melhor. Se já tem um relógio, um relógio melhor.
Isso quase nunca funciona, por um motivo simples: quem já tem tudo geralmente tem tudo porque compra bem. A versão melhor que você escolheu com meia hora de pesquisa vai ser comparada com a versão que a pessoa escolheu depois de meses pensando no assunto. Você está competindo no campo em que ela é especialista e você não.
Pior: presente caro para quem tem dinheiro comunica pouco. A pessoa sabe exatamente quanto custou, sabe que podia ter comprado, e a única informação que sobra é que você gastou. Não é uma informação interessante.
Específico em vez de melhor
A saída não é subir o preço. É estreitar a mira.
Quem já tem tudo não tem o objeto que só faz sentido para ela. Não tem a coisa que resolve a queixa específica que ela repete há dois anos. Não tem o item ligado ao assunto que ela estuda por conta própria e sobre o qual ninguém pergunta.
Um exemplo do formato, não do produto: alguém que cozinha há vinte anos tem todas as panelas. O que essa pessoa provavelmente não tem é o ingrediente difícil de achar que ela mencionou uma vez, ou a ferramenta específica de uma técnica que ela começou a testar mês passado. O primeiro é genérico e caro. O segundo é barato e demonstra que você estava prestando atenção quando ela falou.
Essa é a regra inteira, e ela vale muito mais do que qualquer lista de sugestões: o presente para quem tem tudo não compete em qualidade, compete em especificidade.
Consumíveis, experiências, upgrades
Três categorias funcionam bem, e vale entender por que cada uma funciona.
Consumíveis resolvem o problema do acúmulo. Alguém com a casa cheia não quer mais um objeto — mas come, bebe e usa coisas que acabam. Um consumível de qualidade alta é um dos poucos presentes que não disputa espaço com nada.
Experiências resolvem o problema da comparação. Um jantar, um curso, um ingresso não entram na prateleira ao lado das coisas que a pessoa escolheu. E elas costumam render mais conversa depois do que qualquer objeto.
Upgrades do que ela já usa todo dia resolvem o problema da relevância. A pessoa que usa a mesma coisa diariamente há anos raramente para para pensar se existe uma versão melhor — ela resolveu esse problema uma vez e seguiu a vida. É a única categoria em que "melhor" funciona, e funciona porque você está mexendo em algo que ela já validou.
O que evitar
Objeto decorativo. Quem tem tudo tem a casa decorada do jeito que quis. Você está propondo uma alteração.
Outra versão do que ela já tem. Segunda carteira, segunda mochila, segundo fone. Se o primeiro serve, o segundo é um problema de armazenamento.
Coisas "para relaxar" genéricas. Kit de banho, vela aromática, almofada térmica. São presentes que dizem "não pensei em você especificamente" com bastante clareza.
Vale-presente, quase sempre. Para quem já compra o que quer, um vale é literalmente devolver o problema. Há exceções — estão no guia sobre vales — mas esse caso não é uma delas.
E uma observação final que resolve mais casos do que qualquer categoria: às vezes a pessoa que "já tem tudo" está sinalizando que não quer presente nenhum. Vale ouvir. Um almoço, uma tarde, uma tarefa chata resolvida por ela — essas coisas não ocupam espaço, não precisam de gosto, e são exatamente o que alguém com tudo costuma não ter.