Guia
O que não dar de presente
As superstições brasileiras levadas a sério, e os erros práticos que estragam mais presentes do que qualquer crendice.
Tem duas listas do que não dar de presente. Uma é feita de superstição, e você pode achar bobagem — mas quem recebe pode não achar. A outra é feita de erros práticos, e essa acerta muito mais gente do que qualquer crendice.
As superstições, levadas a sério
Não porque sejam verdade. Porque são conhecidas, e um presente que faz a pessoa lembrar de uma superstição ruim já falhou, independentemente do que você acha de superstição.
Faca e qualquer coisa que corta. A crença é que corta a amizade junto. É provavelmente a mais viva das superstições brasileiras de presente, e tem até uma solução embutida na tradição: quem recebe devolve uma moeda, transformando o presente numa venda simbólica. Se você vai dar uma faca boa — e faca boa é um excelente presente para quem cozinha — dê junto com a explicação e uma moeda. Resolve, e vira história.
Sapato. Diz-se que a pessoa vai usar para ir embora de você. Some isso ao fato de que sapato depende de numeração, largura e gosto, e você tem um presente que erra por dois motivos independentes.
Lenço. Associado a lágrima e a luto. É uma superstição menos citada hoje, mas sobrevive o suficiente para não valer o risco.
Carteira ou bolsa vazia. A crença é que a pessoa fica com a vida financeira vazia junto. A solução tradicional é simples: coloque uma nota dentro, mesmo que de dois reais. É simbólico e custa nada.
Perfume. Essa é ambígua. Em parte da tradição, dar perfume "afasta" a pessoa. Mas o problema real do perfume não é místico — é que você está escolhendo o cheiro de outra pessoa, o que exige conhecer o gosto dela melhor do que a maioria das pessoas conhece.
Se você acha tudo isso bobagem, tudo bem. Só vale lembrar que o presente não é sobre o que você acha. É sobre o que a pessoa sente ao abrir.
Os erros práticos, que erram mais
Aqui é onde a maioria dos presentes realmente falha, e nada disso tem a ver com crendice.
Qualquer coisa que dependa de tamanho. Roupa, sapato, anel, luva. Você precisa acertar um número que raramente sabe, e o erro tem consequência: a pessoa precisa trocar, o que significa nota fiscal, deslocamento e a conversa constrangedora de admitir que não serviu. Um presente que gera tarefa não é um presente.
Qualquer coisa que dependa de gosto específico. Livro de um autor que a pessoa talvez já leia. Disco de uma banda que ela talvez já tenha. Perfume, como acima. A regra: se acertar exige conhecimento que você não tem certeza de ter, escolha outra coisa.
Qualquer coisa que ocupe espaço na casa de alguém. Objeto decorativo grande, vaso, quadro, escultura. Você está decidindo como a casa de outra pessoa vai ficar, e ela vai precisar exibir aquilo por educação, mesmo sem gostar. É um presente que cobra aluguel.
Qualquer coisa que crie obrigação. Planta que precisa de cuidado, animal, assinatura que renova sozinha, curso que precisa ser feito. Você não deu um presente; você deu uma tarefa com laço.
Presente de piada. Funciona uma vez, na hora, por dez segundos. Depois vira um objeto que a pessoa não pode jogar fora porque foi presente e não quer guardar porque é inútil. Se a piada é boa mesmo, faça a piada e dê outra coisa.
Eletrônico barato de marca desconhecida. É a categoria com maior distância entre o que parece na foto e o que é na mão. E quando quebra em dois meses, quem recebeu associa o problema a você.
O que sobra quando você tira tudo isso
Bastante coisa, na verdade — e é aqui que a lista negativa vira útil, porque o que sobra tem um padrão claro.
Sobra o que se consome: comida boa, bebida, café, algo que acaba e não vira acúmulo. Sobra o que não tem tamanho: acessórios ajustáveis, itens de casa que não são decorativos, ferramentas de quem tem um hobby. Sobra o que a pessoa usaria toda semana mas não compraria para si — que é, de longe, a categoria mais forte de presente que existe.
E sobra o específico. Um item barato que só faz sentido para aquela pessoa comunica atenção de um jeito que nenhum item caro e genérico consegue. É a mesma razão pela qual as superstições importam: presente é uma mensagem sobre o quanto você prestou atenção. Todo o resto é embalagem.